Abreviar as palavras é tentar abreviar a dor. Tentamos ludibriar a mente na tentativa de recuperar a ingenuidade já perdida há muito. A morte traz ao de cima a estupidez humana de uma forma que me arrepia mais do que a própria morte. Choramos a partida e acreditamos piamente que é só assim que pode ser. Eu hoje chorei-te a vida. Chorei-te a estadia ainda que longa, demasiado curta; as conversas ainda que muitas, demasiado poucas. Não vou dizer que a vida é injusta por te ter tirado de mim. A vida é exatamente aquilo que era antes de teres partido, sabe-me a menos, mas é igual. Ter a consciência de que a morte é uma das condições da vida mantém-me a mente sã. Não sei se me vês, não sei se me ouves, mais do que isso, não acredito que me vejas nem que me ouças, muito menos que me consigas ler. Mesmo assim decidi escrever-te. Manter-te vivo. Mostrar-te que o meu mundo não parou quando deste o último suspiro porque te decidi eternizar. Sei que respiras a cada palavra que escrevo. O Homem é muito mais do que o corpo; o corpo é apenas carne, devorada pelos bichos. O Homem é muito mais do que carne. O Homem é exatamente aquilo que resta depois dos bichos o devorarem: a mente; e a tua ficou em mim.
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