Entendi que dentro de mim há mais do que está dentro de mim. Gente que me habita mas não me pertence. E que me habita mesmo sem me habitar realmente, porque por muito que a rua um dia nos sirva de cama, a nossa casa será sempre a que escolhermos. Entendi isto numa das minhas lutas interiores em que, para variar, eu me defronto, e perco sempre. Perco porque ninguém vive de metáforas para sempre. Como era bonito o mundo se tivéssemos sempre tempo para terminar todos os ornamentos. Mas tem de haver momentos de pura lucidez - e tem de os haver não só porque a vida o dita, mas porque eu exijo. Momentos de despovoação da mente, de nudez dos pensamentos. Muitas vezes fui viver para fora de mim e vi-me perdida. São mais as vezes em que me perco do que as que me encontro. Vivo tantas vezes do passado que não sei como ainda há futuro para mim. Estou a tentar levar este texto ao teu encontro e está a ser particularmente difícil. Escrever-te com esta crueza que não me é muito característica assusta-me. E há tanto que me assusta no mundo mas o medo do fracasso é aquele que me assola os dias em que não me sais da cabeça. Desabitei-me. Fiquei comigo e só comigo. Não por muito tempo. Não me aguento por muito tempo. E percebi. Chegou a hora de fazer alguma coisa por mim. Não por ti, por mim. E nesse momento isso passa por fechar um capítulo. De ficar em paz comigo. Saber que fiz tudo o que podia ter feito e que a vida continua. Fui à última batalha desta guerra, e perdi-te, mas ganhei-me a mim. Na vanguarda, mas sempre protegida pelos meus. Mas pelo menos vou continuar que dei o peito às balas - não sei viver sem metáforas. Mas enquanto houver pernas para andar, eu vou continuar. A vida é para ser vivida, não para ser revivida. E o passado é só isso, passado.
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